“Extracto da intervenção de Miguel Sousa Tavares na TVI na terça-feira.

TVI - O Ministro da Economia não tem dúvidas quanto à importância dos investimentos públicos, quem tinha dúvidas era o ministro das Finanças, e se calhar por causa disso mesmo é que saiu do Governo.
MST - Eu penso que sim. Faz hoje uma semana exactamente à noite que foi anunciado que o ministro das Finanças saía do Governo. E saía na sequência da ida ao Parlamento do Ministro das Obras Públicas, que foi dizer exactamente o contrário do que o ministro das Finanças tinha dito no artigo que escreveu no Público. E nesta semana que passou as águas dividiram-se, para mim, claramente, não apenas dentro da classe política, mas dentro da própria sociedade portuguesa, entre duas maneiras totalmente diferentes de ver o país. Por um lado, aqueles que acham que o investimento público é sempre sinal de crescimento económico e que o Estado deve ser o motor da economia, que o Estado deve investir para criar riqueza, e do outro lado, aqueles que pensam exactamente o contrário, que pensam que o Estado deve reduzir-se, deve eliminar o seu défice porque senão qualquer dia alguém terá de pagar a conta, ou os nossos filhos ou os nossos netos. Aquilo que o Estado tem de fazer, de facto, é deixar-se de obras faraónicas como o TGV e o aeroporto da OTA, e eu lembro, a propósito – estava a ouvir o ministro Manuel Pinho – que não há nenhum país da Escandinávia, nem sequer a Irlanda, que é o país com maior crescimento na União Europeia, que tenha feito o TGV, portanto não está adquirido que o TGV é igual a desenvolvimento. Sobretudo quando nos falam num comboio de alta velocidade, por exemplo, entre Faro e Huelva, eu gostava imenso de saber quantos passageiros haverá para irem diariamente neste comboio. Quanto ao aeroporto da Ota, já muito foi discutido. Agora dizem-nos de repente que fizeram estudos, eu não conheço os estudos, ninguém conhece os estudos, estão em estudos há vários anos. Aquilo que eu conheço é a tendência para o despesismo da clientela partidária que circula à volta dos partidos, são os empreiteiros de obras públicas, são as pessoas dos concursos públicos. Sei que há grandes interesses especulativos em relação aos terrenos da Ota e há, obviamente, muita gente a ganhar com a deslocação do aeroporto de Lisboa. Não está demonstrado de maneira nenhuma que o aeroporto da Portela esteja em vias de estar saturado, basta compará-lo com os outros, e sobretudo não está demonstrado que o aeroporto da Portela não possa ser complementado, com as pistas de Alverca e com a pista do Montijo. Portanto, dividiram-se as águas.”

in Diário Económico (28.07.2005)